Numa linha bastante coerente e já bem vincada em livros como “As três touquinhas brancas” (2000), “Branca Flor, o príncipe e o demónio” (2001), “Diabos, diabritos e outros mafarricos”(2003) e “Bruxas, feiticeiras e suas maroteiras” (2003), o escritor transmontano Alexandre Parafita, autor consagrado de literatura infantil, acaba de brindar-nos agora com a obra “O Conselheiro do Rei”, publicado pela editora Impala.
Em subtítulo, este novo livro menciona também: “...e outras histórias de tradição oral”. E tal circunstância não é irrelevante. Remete-nos desde logo para todo um ambiente semiótico-pragmático deveras fascinante e de onde as narrativas emanaram. Fica por isso bem claro que, para além da riquíssima ludicidade e plasticidade das histórias, presente quer, nos diálogos vivos e requintados, quer nas suas belas fórmulas rimadas, há que não perder de vista o texto como documento vivo de uma idiossincrasia popular, como testemunho de uma identidade cultural.
Veja-se, por exemplo, as histórias “O moinho da maldição”, “O diabo e o ferreiro” ou “Branca Flor e os três suspiros”, para se reter, entre outras manifestações genuínas da cultura ancestral de um povo, os sinais de uma realidade ético-rural tradicional, traduzida numa luta pela sobrevivência em comunidades agrárias pobres onde não falta o recurso ao sobrenatural sagrado e diabólico num apelo ilusório à obtenção de soluções terrenas.
São seis histórias recontadas e recriadas pelo escritor, num estilo e linguagem primorosamente ajustados ao gosto infantil (não é por acaso que Alexandre Parafita se orgulha do Curso do Magistério Primário que tirou há mais de duas décadas). Contudo, não menos importante que isso, é a possibilidade de, através delas, as crianças de hoje poderem reatar o fio da memória com as gerações precedentes. Aliás, a este respeito, é bem sugestiva a apresentação que a editora faz na contra-capa da obra : “As histórias deste livro provêm da tradição oral. De geração em geração, de terra em terra, viajaram na voz de romeiros e almocreves que as trouxeram do tempo dos reinados, dos castelos, dos duendes e das fadas. São por isso muito antigas. Tão antigas que já ninguém se lembra de quem as contou a primeira vez. Nelas ecoa a voz de muitos avós que as ouviram na sua infância. São os avós dos nossos avós, que voltaram a ser meninos ao contá-las, de novo, a outros meninos (...)”.
Fica, pois, com este livro uma boa prova do muito que ainda há para “reinventar” no domínio da literatura infantil. Um domínio que tem, seguramente, Alexandre Parafita como um dos escritores portugueses mais inovadores.