Pode este texto parecer abonado de palavras engalardantes, sendo que eu, enquanto habitante de Trevões posso cair no pecadilho da tenciosidade, mas como diz Paulo Coelho ”alguns livros fazem-nos sonhar, outros trazem-nos a realidade, mas nenhum pode fugir daquilo que é mais importante para o autor: a honestidade para com o que escreve.” É este o fio condutor que procurarei seguir.
Com o tempo consegui aprender que existia uma coisa chamada «longe», que desde sempre existiu e, se há mil anos era «longe», daqui por mil anos será ainda mais. O que fica do tempo? Memórias…
Há-os que fizeram grandes feitos, outros nem tanto. Os primeiros são aqueles a quem Camões já fazia referencia ao dizer “aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando”; os segundos são todos aqueles que, com a sua humilde vivência quiseram prestar tributo. É, neste grupo, que a meu ver, se encaixa a ideia de mudança exponente referenciada por Negroponte: “pequenas diferenças de ontem podem ter, subitamente, consequências de peso amanhã”.
Mas, que tem tudo isto a ver com o Museu? Tudo. O Museu de Trevões é um espaço físico, situado no «longe» espacial e guarda memórias desse “longe” de que atrás falava. As suas paredes são (permitam a analogia) como um quadro, uma moldura que, por vezes se encontra em nossas casas a tapar o cofre das relíquias. Pois bem, a relíquia do Museu é o seu interior e o que dele emana. Prefiro antes a relíquia Cultural, a tradição ali contida.
Quantas vezes, ao entrar naquele modesto quarto à “moda antiga” penso que ali, naquela cama rude, repousaram antepassados trevoenses, pessoas fatigadas pela labuta árdua que o mangual de malhar o pão me faz lembrar. Ou ainda, que se aqueceram à lareira fustigados pelo frio da apanha da azeitona, enquanto pensavam no dia-a-dia e os potes bafejavam com o caldo. Quantos sonhos não terão sido idealizados para Trevões por tantos dos antepassados que ali se encontram expostos em fotografias?
Imagino as preces que este segundo grupo, como me aprouve designar, terá erigido a Deus naquele pequeno Oratório de quarto, para que melhores dias viessem. Mesmo o douto, na secretária da entrada, augurou um futuro risonho aos seus descendentes.
É bom estudar, perceber a História dos Povos. Contudo, não importa somente estudar a Cultura Clássica, admirar o Património que os Romanos deixaram ou as batalhas que travaram. Importa, também, perceber a dimensão da riqueza que temos e a vida dura com que os nossos antepassados se debateram.
Dá-me gozo, como que um contentamento interior que não consigo explicar, ver expostos os trajes antigos, os utensílios de trabalho, as frágeis canecas de barro, os potes de fazer comida ao lume, gastos por tantas bocas famintas. Gosto de pensar que aquela concertina ou viola exposta, que a traça vai devorando, alegraram os espíritos algozes de outrora, a par de um trago de vinho duriense. Enfim, estas e outras coisas que agora não me ocorrem e me fazem deambular. Ali está contida uma parte de cada habitante de Trevões. Grandiosa, refira-se. É esta a riqueza que o Museu encerra.
Ao sair a porta do Museu, respiro uma lufada de ar fresco e suspiro de alívio: ainda bem que nada disto se perdeu!
Tiago Silva
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