Está patente uma exposição de fotografia de Roberto Santandreu, patrocinada pela Resíduos do Nordeste, EIM, no Centro Cultural de Bragança, subordinada ao tema Fantasia em f(erro) menor, a obra de Roberto Santandreu tem por pano de fundo a paisagem transmontana, salpicada pelo ferro de carros e camiões abandonados à passagem dos anos.
“Há uns anos atrás, ao fazer a recolha fotográfica para o livro da pintora Graça Morais O Fim do Milénio, tive a oportunidade e o privilégio de conhecer bastante bem o Nordeste Transmontano. (...) Passei por aldeias e vilas, montanhas e vales, atravessei alguns rios, introduzindo-me por caminhos quase inacessíveis, à procura de alguns temas e ângulos, que pudesse registar com a minha câmara. Por vezes, quando estava pronto a accionar o obturador da máquina, surgiam no meu visor silhuetas de carcaças de automóveis abandonados”.
As palavras são do fotógrafo Roberto Santandreu e remetem-nos para a temática da exposição que o artista inaugurou na passada sexta-feira, no Centro Cultural de Bragança.
Patrocinada pela empresa Resíduos do Nordeste e recebendo o apoio de todos os concelhos do distrito de Bragança, Fantasia em f(erro) menor não poderia ser uma exposição mais oportuna. Numa época em que a sustentabilidade da produção e do consumo e a procura de novos equilíbrios com o ambiente estão na ordem do dia, Roberto Santandreu propõe-nos subtis desafios intelectuais. As fotografias que nos apresenta mostram belas paisagens cortadas por automóveis abandonados ao tempo e à ferrugem, em que, por sua vez, o artista colocou bonecas de corpo esguio.
O acto de acrescentar bonecas a uma realidade que já tem em si algo de absurdo acaba por ser precisamente o ponto de partida para outras reflexões intelectuais. Aquilo que, inicialmente, poderia ser apenas uma preocupação ambiental acaba por ganhar outros significados. Caberá a cada pessoa dizer quais. E oportunidades não faltarão certamente, já que a exposição irá percorrer, durante um ano, os vários municípios do distrito de Bragança, assumindo-se como um evento cultural de grande impacto para a região.
Roberto Santandreu, nascido na cidade de Milão em 1948, filho de um diplomata chileno e de uma cantora de ópera brasileira, encontra-se, desde sempre, na confluência de diferentes mundos. Durante os estudos de Filosofia, que realizou no Chile, conheceu Tito Vásquez, fotógrafo popular na década de 50, que o terá despertado para “a arte de saber olhar”. Com a ascensão do obscurantismo de Pinochet, mudou-se para a Europa, tendo trabalhado em diversos países, mas optando por fixar-se em Portugal. Estávamos em 1975.
Desde então, tem-se repartido por um vasto leque de actividades, desde a fotografia industrial e publicitária à realização de livros e catálogos para galerias de arte, passando pela direcção de organismos estatais ligados ao audiovisual. Este percurso ecléctico, consolidado por inúmeras viagens ao estrangeiro realizadas no exercício da sua profissão, ter-lhe-á dado uma visão global relativamente às diferentes vertentes da fotografia, permitindo-lhe saber, em termos concretos, como é estar em cada uma delas. Além de inúmeras exposições, prémios e presenças em colecções particulares, Roberto Santandreu dispõe de uma assinalável obra reduzida a livro.
A inquietação intelectual que caracteriza o artista levou-o recentemente à idealização de um outro projecto, este de maior abrangência. Abrindo as portas do seu atelier a uma mão-cheia de fotógrafos, propôs o desafio da troca de ideias e experiências, no sentido de divulgar e promover a fotografia junto da comunidade. O projecto Photosapiens, de que fazem parte fotógrafos de várias gerações, cada um deles com as suas estéticas e linguagens próprias, assume-se ainda como um espaço em que cada elemento tem a oportunidade de desenvolver a sua individualidade através da interacção com o grupo.
A exposição a inaugurar agora em Bragança irá descer à capital nos primeiros meses do próximo ano, podendo então ser igualmente apreciada pelos lisboetas.
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