Quando, em crianças, balbuciamos as palavras não temos noção da importância da língua. Esta adquire-se muitos anos mais tarde…
Agora sou capaz de discernir que a língua é laço, união, presença no mundo. Falar é defender a vida de uma comunidade. Manter uma língua vernácula é consolidar a própria cultura e resistir à massificação.
Acerca desta matéria, escreve Roland Barthes: “é essencialmente um acto colectivo, ao qual nos temos de submeter em bloco, se quisermos comunicar (…)”.
Observando a realidade e diversidade linguística podemos constatar que há línguas que morreram com os povos que as usavam. Outras, porém, morrem de desprezo, repúdio, vergonha e abandono a que foram votadas. No entanto, há algumas línguas, raras e exangues, que se refazem, dia-a-dia, quando os povos descobrem o valor dos símbolos culturais que as suas línguas encerram.
Há línguas que têm uma copiosa e bela literatura e valiosas peças musicais. Outras nem por isso… quem de nós ouve falar tanto do Mandarim como do Alemão, por exemplo? O Latim foi chamado de língua universal; o Grego ocupou posição semelhante; e o Francês foi língua de requinte, idioma das cortes e da diplomacia entre os séculos XVII e XIX.
Contrariamente ao que muita gente pensa e segundo a UNESCO, o Mandarim é língua materna mais falada no mundo (874 milhões de falantes), estando o Português em sexto lugar (176 milhões de falantes). O Mandarim é uma língua vernácula, língua-mãe. Contudo, as pessoas criaram a ideia de que o Inglês é a língua mais falada, dado que é usada como língua veicular entre pessoas com idiomas diferentes, de maneira a que possam comunicar.
A importância de uma língua mede-se pelo número de falantes. A ideia que temos de determinada língua (forte ou fraca) depende, em larga escala, da maneira como encaramos a civilização que dela se serve para comunicar. A Sociolinguística ensina que não há línguas boas ou línguas más e que fazer uso delas para comunicar é usufruir de poder. Falar é poder!
Cabe-nos a tarefa de compreender, utilizar e preservar as línguas, dado que o relatório da UNESCO indica que muitas línguas asiáticas, africanas e americanas estão e risco de extinção. Se desaparecerem desaparecerá, certamente, um marco de vivência e cultura do Homem. Que bom seria sabermos como falavam os nossos antepassados… mas há esperança em consegui-lo. De acordo com o linguista Merrit Ruhlen “reagrupando os esforços de linguistas, antropólogos, arqueólogos e geneticistas, pode-se esperar reconstituir a história da humanidade desde o surgimento da nossa espécie”. Este esforço tem sido feito pela Ciência e pela Religião, ao longo dos tempos. Recordemos que, pelo texto bíblico, no início dos tempos só se falava uma língua. Mais tarde, Platão falava de uma língua fundada na natureza; Descartes preferia uma língua universal bastante fácil de aprender; Rosseau buscava na degeneração da linguagem dos primeiros homens uma explicação. Os linguistas procuram dissecar as línguas para que possamos compreende-las melhor. Pode ser que seja desta!