“GERNIKA” de Fernando Arrabal poderá ser vista como um manifesto Anti-guerra, mas para além desse rótulo, é sem margens para dúvidas uma verdadeira história de amor entre dois personagens “Lira” e “Fanchu”. Mas é também nesta obra que se anunciam os primeiros sinais do Movimento Pânico ou Teatro Pânico, que o Autor, em Paris, nos anos sessenta, em parceria com Jodorosky e Topor desenvolvem o referido movimento que tem como traço fundamental a abertura com qualquer possibilidade de criação artística. Mas acima de tudo, “GERNIKA” é o registo de um facto histórico: o Bombardeamento sobre a cidade Basca de Gernika no dia 26 de Abril de 1937, pelas forças Nazis com a finalidade de testar equipamento bélico e de auxiliar o General Fascista Franco.
Com o pretexto de uma verdadeira história de amor, o texto dramatiza o horror da guerra, não de uma forma gratuita, mas acentuando valores do direito à vida, introduzindo marcas acentuadas do Teatro do Absurdo e do Surrealista. O espectáculo está carregado de ironia e humor, que nos confrontam com a realidade, sem nunca esquecermos a drástica realidade da morte sempre presente no contexto de guerra. A ansiedade é outra nota marcante, muitas vezes confundida com a sensação de pânico, e com a tensão, sempre inerente à presença física, ou não, do “Oficial”.
Os diálogos, algo soltos, são a predominância do espectáculo, como que fugindo da realidade, ou assumindo como uma resignação perante a guerra. A “Mulher” que passa num contexto quase surrealista, anuncia-nos o que de comum existe nas guerras: pânico, dor, raiva, impotência, amor, choro, … por entre um espaço assumidamente Cubista a preto-e-branco, estranho, geométrico mas claramente ordenado, com a particularidade da utilização de materiais reais, rudes e frios. É com esta imagem que “Gernika” de Pablo Picasso, nos aparece, disfarçado no que resta do espaço real (casa) dos personagens principais.
Os personagens estão todas à procura de algo, controle sobre si próprias, justificações, aliadas a uma esperança transmitida pela “Árbol de Gernika” (Árvore de Gernika), contrapondo a capacidade doentia e a sede de controle pelo poder do “Oficial”, que domina as suas prezas, como um Domador de Circo domina as suas feras. Mas é acima de tudo isto a procura de um tema para uma obra que a Escritora tanta anseia, que permite a existência e a manutenção dos personagens, que caminham para um destino já preestabelecido, não tendo nenhum controle sobre o seu quotidiano ou vida, como em Gernika em Abril de 1937.
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