A figura do demónio, que assume na tradição e nas inquietações populares um papel relevante, é desmistificada nestas histórias, que procuram ser, simultaneamente, fantásticas e brincalhonas.
Promotor de todos os medos, enquanto chefe supremo do mal, o demónio é explicado aos mais novos como um ser ridículo e imbecil, um gigante com pés de barro, num jogo simbólico em que a lealdade, a inteligência e a coragem derrotam sempre a hipocrisia, a estupidez e a cobardia.
Como todos os contos tradicionais que recorrem ao fantástico e seus estereótipos (demónio, lobisomens, bruxas, fadas, ogres…), estas histórias procuram, ao mesmo tempo, ter um efeito catártico, exorcisando os medos e apontando algumas defesas para a vida. Nelas o povo procura, de resto, preservar alguns dos seus catálogos éticos, ao mesmo tempo que deslumbra os mais novos com um passado sempre longínquo e mágico.
O autor, que é também investigador nas áreas do património imaterial e da mitologia popular, identifica e homenageia neste livro os “narradores da memória” que, com os seus os testemunhos orais, permitiram resgatar estas histórias (“O lencinho mágico”, “A lagarta, o diabo e a borboleta”, “O diabo e a cabaça” e “O jogador com pés de cabra”). São eles: Ilda de Jesus Paredes, de Peredo, Macedo de Cavaleiros; Monsenhor Eduardo Augusto Sarmento, de Vila Real; José Ramos, de Sendim, Miranda do Douro; e Graciano Augusto Morais, de Espinhoso, Vinhais.
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