Vestígios de uma época em que a população tentava ser auto-suficiente e produzir tudo de quanto necessitava, nomeadamente em termos de vestuário, existem ainda muitas mulheres que mantêm viva a tradição de trabalho da lã. Meias e camisolas de lã, capas, saias e aventais de burel. Todos artigos de qualidade inestimável para quem se habituou a usá-los. Pois, “os panos de hoje já não têm aquele toque, aquela duração, aquele calor”.
Alta qualidade, de facto, de tanto tempo e cuidados que se lhe prestam.
A lã
Depois de um ano no monte, as ovelhas são tosquiadas nos meses de Abril e Maio. Umas brancas, outras pretas; a cor da lã é escolhida consoante o trabalho que se quer realizar (a lã preta destina-se, por exemplo, principalmente ao fabrico do burel).
Lava-se a lã para lhe tirar o pó, palhas e outros resíduos incompatíveis com as etapas que se seguem. Depois de seca, a lã é carmeada e cardada.
Existem vários destinos para o produto obtido: fio de lã propriamente dito para meia e camisola, executados com agulhas, cobertores realizados no tear ou burel para peças de vestuário.
O Fio de Lã
Destinado a meias, camisolas, aventais.
Segue-se o delicado processo de fiar e torcer a lã (com roca e fuso), etapas que convém serem executadas pela mesma pessoa para que o fio tenha sempre a mesma espessura e textura. E do fuso, a lã passa para o novelo na operação de dobar. Depois de torcida, a lã é urdida e tecida. Neste estado ficam cobertores ou teias para peças de vestuário mais leves.
O Burel
Para fazer burel, a lã, depois de urdida e tecida vai para o pisão. Esta máquina bate e escalda a lã de modo a tornar o pano mais duro e apertado. As teias pisoadas são então entregues a um alfaiate que as transforma em capas, casacos, coletes e calças de burel para os inúmeros dias de chuva, neve e vento no monte. Hoje em dia, o artigo mais em uso é a capa de burel.
No concelho de Boticas, já não se regista qualquer pisão em funcionamento. Esta tarefa é executada para as aldeias do Barroso por um cidadão de Tabuadela (concelho de Montalegre), entre outros.
Não existe ao nível da freguesia valorização destes produtos de uma maneira organizada (associação de artesãos, por exemplo), razão pela qual a produção se vai extinguindo.
Vocabulário
Carmear: “desguedelhar” ou “carpear” em linguagem regional, desenfrear, desfazer os nós – operação efectuada à mão.
Cardar: desenredar mais fino – instrumento: cardas.
Dobar: fazer novelos
Urdir: preparar os fios para o tear – instrumento: urdideira
Tecer: realizar um pano no tear
Augusta Pires – Intermediária do GAC de Alturas do Barroso
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