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Foto do artigo 'EUROOOOOPAAA!!!...  SOCOOOORROOO!!!...'
20-05-2002 
EUROOOOOPAAA!!!... SOCOOOORROOO!!!...
"No recreio, cercado por um muro irregular e infestado de silvas e outra vegetação espontânea, vê-se uma criança com uma bola sem ninguém a quem a passar. Porquê? Os colegas faltaram? Não querem brincar com ela? Prefere brincar sozinha? Não!!! Os colegas não existem, ela é a única aluna da escola."

Algures no interior norte deste extremo ocidental da Europa, entre construções antigas e outras mais recentes, mas desabitadas, vê-se um pequeno edifício branco, com a pintura mal tratada e o mastro da bandeira enferrujado. No recreio, cercado por um muro irregular e infestado de silvas e outra vegetação espontânea, vê-se uma criança com uma bola sem ninguém a quem a passar. Porquê? Os colegas faltaram? Não querem brincar com ela? Prefere brincar sozinha? Não!!! Os colegas não existem, ela é a única aluna da escola. Os colegas partiram há anos para uma Europa diferente desta. Uns foram ao colo do pai ou da mãe, outros partiram ainda em forma de projecto na cabeça dos progenitores que queriam ter uma existência diferente e proporcionar a si próprios e aos seus descendentes outras condições que não encontravam nesta desolação económico-social. Foram engrossar a multidão dos grandes centros urbanos, portugueses e europeus, foram apinhar-se nas carruagens do metro e cheirar os sovacos dos colegas de viagem, foram aglutinar-se nos maciços habitacionais e adensar as filas de acesso às circulares externas e internas onde as pessoas perdem horas preciosas da sua vida. Sim, porque aí é que há fábricas, hipermercados e centros comerciais a pagarem os cobiçados salários, mínimos ou pouco mais que mínimos, que permitem sobreviver; aí é que há prédios para construir, estádios para levantar e exibir, estradas e pontes para construir, túneis para escavar, pessoas a quem vender, escritórios para burocratizar, gabinetes para preguiçar, lugares para oportunidades e oportunismos. E, quantos mais prédios, pontes, estádios e estradas construirem, mais pessoas para lá irão.
A alternativa a esta diáspora, é permanecerem autóctones, enfiados nos seus enclaves geográficos e candidatarem-se ao rendimento mínimo. Desta forma ficariam a engrossar o número de candidatos à dependência, e os seus filhos a engrossar o número de alunos com necessidades educativas especiais. Difícil escolha! É como o burro que tem um molho de feno espezinhado de um lado e um tufo de tojos de outro.
Mas também há quem saia desta ruralidade e vá para outra; esta mais rica, talvez porque melhor organizada ou talvez mais abençoada? Ou melhor apadrinhada? Vão apanhar tomates, morangos ou maçãs durante três ou quatro meses e durante os outros oito ou nove regressam e vão ao hipermercado comprar o concentrado francês, belga ou suíço e as lustrosas covetes de morango espanhol que ajudaram a apanhar. Houve um povo que não tinha terra e quando a conseguiu, agarrou-se a ela para nunca mais a deixar escapar. Há um povo que gostaria de ter uma terra, mas não a tem. Há outro que tem uma terra, mas não a quer.
Venenosa terra esta que só dá tojos, giestas e carquejas e estranha gente que só consegue trabalhar lá longe do olhar dos vizinhos, porque se estes os vêem trabalhar cá, vão comentar que aquele é um burro que se farta de trabalhar e que é bem melhor deitar-se à sombra de uma oportunidade (ou oportunismo) arranjada por um amigo que ocupa um lugar onde se sabe dessas coisas. Estranhos subsídios que em vez de terem servido para aplicações sólidas, duradouras e consequentes, foram desperdiçados em projectos descambados que agora estão a ser subsidiados pela natureza, ou gastos à pressa para inaugurações politicamente estratégicas, ou ...
Muito se estuda e investiga, muitos mestres e doutores emergem, muito se discute e debate, muitas reformas se teorizam, mas a prática não se altera. Por isso, os tojos, as giestas e as silvas avançam e com elas avançam também o abandono, a degradação e a inexorável desertificação. Em vez disso, poderia haver viçosas plantações, pastagens, sólidas estufas, produções competitivas, aldeias e vilas vivas, escolas com alunos e colegas a quem pudessem passar a bola e com um mastro lustroso onde se pudesse desfraldar orgulhosamente o vermelho do esforço e o verde da esperança e da recompensa.
A mão que apertámos à Europa estava oleosa e escorregadia, assim como oleosas e untadas ficaram muitas outras mãos, para melhor deslizarem na imbricada máquina burocrática, aparentemente tão hermética para os leigos, mas afinal tão aberta e acessível para os especialistas. Não soubemos apertar com firmeza, a mão à Europa, para que pudéssemos ter sido guindados para um patamar mais confortável. Em breve ela estará longe e indiferente às nossas lamentações, mas perto e intransigente para as suas exigências. Quem lhe responderá ou pagará essas exigências? Todos nós ou só os especialistas de mãos oleosas?

José Carvalho - Escola de Vale-da-Égua

 
 
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