Alijó, 23 de Outubro de 2003
Carta aberta ao Director da Revista VISÃO
Exmo. Sr. Director, Carlos Cáceres Monteiro, no momento em que lhe dirijo estas palavras tenho dentro de mim uma sensação de profunda tristeza, indignação, choque e até mesmo nojo, e, por mais paradoxal que possa transparecer, sinto-me feliz. Tudo isto porque acabo de ler a reportagem da edição n.º 555, lavrada pelo vosso jornalista – Sr. Miguel Carvalho –, referente à vila de Alijó, a terra que me fertilizou para a vida há 31 anos. Sim é verdade, sou um sobrevivente, mas sem metadona e dos «poucos que fugiram ao destino». Triste porque a nossa vila foi enxovalhada na praça pública por um qualquer indivíduo, que não duvido que conheça bem o Casal Ventoso, mas, que desconhece integralmente Alijó e o concelho na real essência, para poder fazer comparações de tamanha monstruosidade. Indignado, porque reconheço um sentimento de impotência na reposição da verdade e do bom-nome de todos quantos talham por cá a existência, independentemente da forma de viver! Chocado, por suspeitar que tudo quanto li até então, nesta conceituada revista, possa ter tido a mesma dose de facciosismo. Enojado, pelo facto de ter dividido o meu espaço com um indivíduo – o Sr. Miguel Carvalho – esse mesmo, numa peladinha de futebol, onde apareceu como convidado, com equipamento emprestado, para praticar desporto no pavilhão multiusos da «vila Molotov»! Feliz, porque sou de Alijó e vivo em Alijó e nesse mesmo dia, nessa mesma hora, em cerca de trinta homens (sem contar o vosso jornalista), da tal geração perdida entre os 30 e os 40 anos, NENHUM SE PERDEU PELOS CAMINHOS DA DROGA, o que faz cair por terra todo o inventário enganador apresentado. Alijó, não é nem nunca foi o Casal Ventoso do Douro, nem uma vila Molotov. Escreveu-se entre outras calinadas «quanto mais se avança para o rio, mais aumentam os casos de toxicodependência» Pergunto: qual rio? Temos três a delimitar o nosso concelho, a saber – rio Tua, rio Douro e rio Pinhão. Quando somos desprovidos de sapiência, é mais simples agitar suspeição sobre todos… É MENTIRA que as mães dos concelhos vizinhos proíbam o convívio com os jovens da nossa terra! É MENTIRA ser normal entre nós beber um garrafão de vinho por dia! Não basta atirar patetices para o ar, é preciso provar fidedignamente! Se é correcto enaltecer o trabalho de todos quantos lutam pela prevenção, informação, reabilitação e promulgação do tema DROGA, caso dos responsáveis da Câmara de Alijó, como muito bem foi referido, também seria justo que a VISÃO utilizasse a verdade e rigor nas próximas edições, para advertir e publicitar esta doença que assola a humanidade. Espero, seja reconhecido publicamente que a dita reportagem não assentou nos princípios básicos do jornalismo e da própria vida! Foi parcial, não relata a verdade, fala em números e dados sem apresentar as fontes e manifesta uma urgência estranha na acusação de assuntos que denotam carência de seriedade no tratamento. É um facto que temos problemas com a droga, mas isto, infelizmente, é um mal do globo e não da nossa vila! Entendo que a VISÃO queira alertar e assim contribuir para o tratamento dos doentes a quem a doença atacou. Não consigo compreender, como se pode adulterar a realidade com palavras vãs e actos injuriosos, pondo em causa a educação, o turismo, os vinhos, as empresas, os serviços, os políticos, em suma, todos os cidadãos comuns que vivem harmoniosamente neste concelho, situado no seio do Douro - Douro Património da Humanidade. Uma confissão: Também sou um DROGADO! Mas a minha droga é ALIJÓ! A minha METADONA é o ar puro que respiro nestes montes e vales talhados pelo suor e lágrimas de gente séria, boa e humilde, cujo património foi legado, ao longo de gerações para degustar as mais variadas bocas sequiosas do nosso Néctar – seja o Moscatel ou o Vinho do Porto. Um desafio: desloque-se aqui mesmo o Sr. Director e faça justiça! Atenciosamente, na esperança que o assunto lhe mereça atenção, Jorge Carvalho Alijó - DOURO
Jorge Luís Monteiro Carvalho
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