Porém o tema de hoje incide sobre o excesso de trabalho, muito comum nos tempos actuais, mas que nem sempre é reconhecido como tal, e o que é pior, a maioria das vezes confundido com uma qualidade que torna motivo de adulação e respeito o que apelido de "escravo do trabalho". Descrevo o caso típico e característico. São 7 horas da manhã. O despertador-rádio começou a transmitir o noticiário e acordou o Sr. Doutor. Ainda ensonado, chegam-lhe as primeiras notícias do dia; os problemas sociais, políticos e económicos... vão-se infiltrando a pouco e pouco, em ondas sonoras ainda distorcidas, clareando lentamente o campo da consciência, embotada, nos primeiros minutos do despertar. Com esforço, resolutamente, o Sr. Doutor senta-se na cama. Esfrega os olhos empapuçados e ainda piscos, passa os dedos pelo cabelo cada vez mais escasso e, penosamente levanta-se em direcção ao duche matinal. Abandona a casa de banho já completamente desperto e, enquanto na máquina o café aquece, liga o telemóvel e inicia um conjunto de telefonemas que se irão prolongar intermitentemente até noite fora. Sai de casa sem ver os filhos, deixa a esposa que também já fica stressada com o início do dia do marido. Sai para o local de trabalho, consulta a agenda. Apercebe-se das reuniões que vão sucedendo, da pressão psicológica de certos quadros de chefia, o que irritadamente o leva ao desespero habitual em que o dia só tem 24 horas e quando ainda assim é preciso perder algumas delas a dormir. Sim porque nem sempre almoça e ao jantar utiliza o tempo para resolver assuntos inadiáveis e pela noite fora é necessário colocar escrita em dia e organizar estatísticas e números que a instituição pública exige. Parte dos fins de semana e feriados são agravados com o trabalho exaustivo das urgências (SAP) pouco tempo havendo para um relaxamento digno e necessário, ou mesmo para o contacto com as pessoas mais influentes e amigas, etc, etc, etc… Os Srs. Dr. tem muitos afazeres! Todos eles obrigatórios, inadiáveis, fundamentais dos quais ele, o Sr. Doutor é figura absolutamente insubstituível! Quem sabe da realidade, são os que o cercam, quando o aconselham a trabalhar menos, a dedicar algum tempo ao descanso, ao convívio com a família aos amigos?... Ele, o Sr. Doutor, é que sabe! Se não for ele a fazer, ninguém mais faz...E as coisas não podem parar!
Para aumentar as contrariedades da situação da crise mundial, da quebra de investimento, da desvalorização da moeda, do aumento dos encargos, dos graves conflitos laborais...ainda vem o tempo de férias. Mas como é possível que os outros não vejam que as férias são pura perda de tempo? É uma angústia de desespero...não se consegue encontrar ninguém, os problemas acumulam-se... O telemóvel chama, transmitem e não obtêm, desgraçadamente qualquer resposta.
Muitos Senhores Doutores que já tomam remédios para a acidez para as digestões difíceis, além de sedativos e hipnóticos... porque quando se deita dorme as três primeiras horas e depois acorda e os problemas inadiáveis ocupam-lhe o espírito e tornam quase impossível readormecer... Bebe nesta altura muitos mais cafés, outros fumam ainda mais e alguns procuram no "Whisky" a descontracção para o "stress" que este estado de coisas lhes provocam. Bem, o Sr. Doutor, que podia ser qualquer outro senhor e, a escalas diferentes, qualquer um dos leitores pode ser um "escravo do trabalho"! Sofre de ergomania, o trabalho adulterado em escravidão. Não é para se sorrir, o nosso mundo está cheio de ergomaníacos, alguns por vício, outros porque a instituição onde trabalham assim o exige. Não será muito surpreendente de que a sociedade admira os homens "extraordinários" que cultivam incessantemente a sua imagem, que vivem cegos pelo poder e pela procura constante do prestígio, da fama, da riqueza. Este vício que, como todos os vícios, é de difícil tratamento, acompanhando-se de sintomas orgânicos incómodos e diversificados... dores intestinais, más digestões, azia, palpitações, dificuldades em respirar fundo, aperto ou peso permanente sobre o "lado do coração", subida da pressão arterial, forte sensação de fadiga, irritabilidade e intolerância. Não sei se ficou angustiado ou sensibilizado em ler o comportamento do ergomaníaco, mas a mensagem que quero transmitir a todos, é que combatam este terrível vício, fonte duma multiplicidade de doenças. Há que não ter preguiça, mas sejamos razoáveis e equilibrados. O café e o álcool em excesso, os ansiolíticos ou calmantes, os estimulantes, os hipnóticos, o tabaco e o álcool, são maneiras artificiais de enfrentar a ergomania.
Parece que ajudam a "render mais" mas, na realidade, agravam os problemas do dia e arruínam terrivelmente a saúde física. Há que cortar frequentemente a corrente que o liga ao trabalho; conviver com os amigos e rever-se com a família...e encontrar-se consigo próprio. Reaprender a olhar para a natureza: o mar, o céu, as árvores..., respirar pausadamente...relaxação e descontracção. Nos momentos em que estiver só consigo, analise o passado e reajuste a sua actividade para o futuro. Estabeleça prioridades, procure equilíbrio entre trabalho e descanso, delegue noutros parte da sua responsabilidade; refiro mais uma vez, respeitar as pausas...para que possa reaprender a gostar de estar vivo. Há algum tempo, visitei uma empresa dirigida por um doente meu de há muitos anos, e a quem me ligam por tal facto grandes laços de afectividade. Durante esta visita, que fiz na companhia de familiares, o meu doente mostrou-me a planta da empresa que dirigia, e ao estabelecer os limites das instalações de todo o espaço físico disse em determinada altura: - aqui é o lugar onde moram os insubstituíveis... (olhamo-nos com expressão interrogativa e ele concluiu com um sorriso divertido)... o cemitério! Muito tempo passado, ainda me ocorre esta frase...como um exemplo para os que se julgam também insubstituíveis, detentores de grandes poderes,... para os ergomaníacos, que têm aprender a deixar de o ser! Foi esta a única e insubstituível solução que eu, como "Sr. Doutor duma Instituição publica local" e por um período talvez provável de 1 ano tive de adoptar perante graves conflitos laborais com o quadro de chefia local, porque senão, talvez chegasse a uma situação de saúde crítica tal e qual como muitos profissionais que já atrás referi. O bom senso, o espírito de equipa e a "alma invisível" dentro duma instituição pública que tem de existir é importante para o equilíbrio de todos os profissionais que aí trabalham, e quando se discute "Instituição de saúde" a alma tem de ser muito grande, quer do edifício em si, seja de todos os profissionais que aí trabalham. Sendo assim, uma Instituição escravizar e ser prepotente com funcionários, não é só torná-los ergomaníacos dessa casa como também lhes provocar graves danos, com repercussão directa sobre o porquê da existência de tal instituição: o utente e o doente fragilizado. Dispenso mais considerações...
António Canotilho, Médico assistente graduado de Clínica Geral
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