Pequena carta aberta ao jovem José Eduardo Martins
«Caro Secretário de Estado do Ambiente português,
Chegaram-nos aos ouvidos que o Vosso colega Adão e Silva foi tratar da saúde a Trás-os-Montes, preparando a sua (dele) mais que provável saída na próxima remodelação, e vai daí que declarou que o projecto hidroeléctrico do Baixo Sabor vai avançar enquanto ainda decorre o processo de avaliação de impacto ambiental. Parece-nos isto um pecado original, da parte do Adão, uma vez que é uma ilegalidade formal evidente. E um grave desrespeito pelos mais elementares instrumentos de participação democrática e intolerável pressão sobre o Eng. Pedro Serra, presidente da Comissão de Acompanhamento do respectivo EIA... Mas, pior compromete-o a si uma vez que, já o anunciou no Jornal de Notícias de 5 de Março passado, Vexa virá dar força a uma obra que a comunidade científica nacional tem unanimemente considerado uma aberração.
Caro Zé, se nos permite este tratamento mais familiar, veja bem as amizades que escolhe. Sucede que há um certo alcaide (em Trás-os-Montes dizem-nos que é o exemplo acabado do cacique transmontano, nado e criado na Invicta), por sinal militante de um partido que não é o seu, e que consegue arrastar outros autarcas para concretizar o sonho megalómano de inscrever o nome dele num paredão de uma mega-barragem, destruindo o exemplo máximo de biodiversidade (repare, já devia sabê-lo, desta diversidade faz parte o ser humano e as suas actividades agrárias!), que é o vale do Baixo Sabor. Ou, como um residente local uma certa vez disse: “Ele quer é pôr-nos pescar da janela da nossa casa”. Como se assim, no regolfo do rio represado, se pudessem afogar duas décadas de ineficácia e incompetência municipal (com breves incursões como chefe de gabinete em governos rosa, qual sir Hunfrey lusitano). Você foi (e quem sabe, poderá voltar a ser) um político prometedor: um dia ainda ainda chegava a ministro... E anda-se a desgraçar com arrogâncias tontas e ilegalidades formais? Quem são os seus assessores?
Olhe, já sabe o que é o ‘barragismo’? Consta do dicionário dos enganos humanos: «1) movimento de engenharia divinamente inspirado para afogar vales, mesmo que a economia recomende o contrário; 2) vontade de fazer sem sentido; 3) obrar». E um ‘barragista’? «Sinónimo de fundamentalista do betão». E você, que é tão jovem ainda, também vive na era do betão? Largue essa barragem do pensamento... Veja o caso dos autarcas do rio Minho ou de Cinfães ou de Montalegre; esses já viram a luz. Esses senhores autarcas já são da nova era.
Alguns autarcas transmontanos, à falta de melhor, são como alguns empresários do Minho: compram Ferraris porque não têm ópera. Estes não têm estradas, querem barragens... Enfim... Recordemos a voz do pe. António Vieira: «para ensinar homens entendidos e políticos, pouco amor é necessário; basta muita sabedoria; mas para ensinar homens bárbaros e incultos, ainda que baste pouca sabedoria, é necessário muito amor».
Mas ó Zé, será que você ainda não percebeu que a sociedade portuguesa, no contexto deste tempo que é o da Europa de 2004, não está disposta a construir mais barragens não rentáveis, suportadas por estudos de impacto ambiental (EIA) pré-comprados a peso, cuja credibilidade foi analisada e reprovada nas universidades públicas?
Ainda não entendeu que não há turismo nas barragens transmontanas? É delírio autárquico, caro Zé! E sinal de subdesenvolvimento. Aquela região não consome nem 1/4 da energia que produz. E vales já são poucos. E logo este, que é o último com os raros ecossistemas anteriormente comuns no Alto
Douro...
Zé, por favor, tenha muito cuidado com chão que pisa... pode estar lamacento
como a margem duma albufeira.
Dos teus amigos,
À perna...
Núcleo de Estudo e Protecção do Ambiente (NEPA), secção da Associação Académica da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
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